Aplicações Harmônicas

“Be wise, generalize.” (Reed and Simon)

Como estava na China, e lá o acesso ao wordpress é bloqueado, os posts estão atrasados. Anyway, vamos lá.

Há algumas semanas atrás, meu primeiro aluno de mestrado defendeu sua dissertação, e nem preciso dizer que estou feliz com isso. Até porque o assunto é interessante e tem como extensão o, tão famoso hoje em dia, fluxo de Ricci.

Funções harmônicas tem um reconhecido impacto e importância em matemática, tanto em EDPs, holomorfia (p.ex. superfícies de Riemann), Análise Harmônica, Geometria entre outras.

Em sua forma mais simples considera-se uma função f:\mathbb{R}^n\to\mathbb{R} com Laplaciano identicamente nulo, mais geralmente considera-se uma variedade Riemanniana (M,g) e uma função f:M\to \mathbb{R} tal que o operador de Laplace-Beltrami da variedade Riemanniana aplicado a f se anula em todos os pontos.

No primeiro caso temos a seguinte equação:

\Delta f=\sum_{i=1}^n \partial_{ii}f=0

Que é equivalente a:

Traço (D^2 f)=0

No segundo caso, temos uma expressão semelhante envolvendo a métrica g.

Uma pergunta natural é se o conceito de harmonicidade se estende para aplicações e não somente para funções. Isto é dada uma aplicação f:(M,g) \to (N,h) entre duas variedades Riemannianas, o que é o conceito de harmonicidade.

Olhando a segunda formulação, observamos que precisamos saber derivar duas vezes a aplicação e tomar um traço. O traço não tem problema, uma vez que a variedade M possui uma métrica Riemanniana. A noção de derivada segunda já é mais complicada, e nota-se que de alguma maneira ela deve envolver a métrica da variedade de chegada. Um meio de resolver isto é trazer para M o fibrado tangente de N e considerar então a diferencial de f como:

df\in \Gamma(TM^*\otimes f^{-1}(TN))

Neste espaço temos naturalmente uma métrica e uma conexão definidas por:

g^{\otimes}(v_1\otimes w_1,v_2\otimes w_2)(p)=g^*(v_1,v_2)(p)h(w_1,w_2)(f(p))

\widehat{\nabla}_X(du\otimes V)=(\nabla^*_Xdu)\otimes V+du\otimes (\nabla^f_X V)

Onde, g^* e \nabla^* são a métrica e a conexão do fibrado dual de TM, h é a métrica de N e $\nabla^f$ é a conexão induzida por $f$.

Com isso, temos a derivada segunda, que é chamada de segunda forma fundamental de f:

\widehat{\nabla}df\in \Gamma(TM^*\otimes TM^*\otimes f^{-1}(TN))

Finalmente temos a noção de Laplaciano e aplicação harmônica, f é harmônica se o campo de tensão de f se anula, onde o campo de tensão é:

\tau(\widehat{\nabla}df).

De fato esta definição generaliza diversos exemplos encontrados em geometria, se f é harmônica então:

  • Se f:\mathbb{R}^n\to \mathbb{R} então f é função harmônica clássica.
  • Se f:(M,g)\to \mathbb{R} então f é função harmônica para o operador de Laplace-Beltrami de (M,g).
  • Se f:S^1\to (N,h) então f é uma geodésica de N.
  • Se f:(M^2,g)\to (N,h) e é uma imersão isométrica então f é superfície mínima.
  • Se f:(M^2,g)\to (N^2,h) e M,N são superfícies de Riemann então f é (anti) holomorfa.

Tais funções harmônicas também são pontos críticos do funcional de energia natural. Seja f:M\to N e f_t uma variação, considere V o campo variacional associado, isto é,

\frac{\partial f_t(p)}{\partial t}|_{t=0}=V(p)

Definindo a energia destes mapas como (note que a norma é tomada com a métrica g^{\otimes}:

E(f_t)=\int_M|df_t|^2d\mu_g

Então a fórmula de primeira variaçao é:

\frac{d}{dt}E(f_t)|_{t=0}=-\int_M\langle V,\tau(f)\rangle d\mu_g

Daí, vemos que as aplicações harmônicas são pontos críticos do funcional de energia.

A pergunta natural é quando tais funções existem. Temos então o teorema:

Teorema (Eells e Sampson): Se M, N são compactas e N tem curvatura não-positiva então toda aplicação contínua f:M\to N é livremente homotópica a uma aplicação harmônica g:M \to N.

A idéia é que pela fórmula da primeira variação o campo de tensão funciona como -grad(E) e portanto, se procurarmos por um mínimo do funcional energia, este será um ponto crítico e portanto uma função harmônica. Logo, podemos tentar aplicar o chamado “método do fluxo do calor”.

Isto é, considere f como condição inicial da seguinte equação diferencial:

\frac{d}{dt} u_t=\tau(u_t),\textrm{ onde }u_0=f

Resulta que esta equação é uma equação diferencial parcial de segunda ordem parabólica não linear. Portanto, nào é claro a existência de soluções fortes globais. O ponto é que se pudermos mostrar que o fluxo existe globalmente e tende a uma singularidade, então o fluxo definirá uma homotopia livre entre a condiçào inicial e a singularidade que já vimos que é harmônica.

Os detalhes estão na dissertação do Adilson que envolve diversas técnicas de EDPs não triviais, como o princípio do máximo, estimativas Schauder eliticas e parabólicas, bem como ferramentas geométricas pra controlar o campo de tensão ao longo da evolução do fluxo, o qual é obtido por fórmulas de Weitzenböck generalizadas para equações parabólicas.

Enfim, acredito que o texto está bem instrutivo e vale a pena ler. Seeya!

Uma resposta para Aplicações Harmônicas

  1. bibiinthecity

    Parabens!!!!

    Um fofo-beijo e um fofo-abracao!!!

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