Entropia Positiva para Fluxos Geodésicos I: o caso da esfera

E aí povo. Hoje vamos falar sobre um resultado devido a Contreras-Paternain.

O resultado versa sobre o fluxo geodésico de uma variedade. Ele é construído da seguinte forma, seja g uma métrica Riemanniana (pelo menos C^2) sobre a variedade M^n. Dado um ponto p e uma direção v\in T_pM (unitária) temos uma única geodésica \gamma parametrizada por comprimento de arco,  que passa pelo ponto p com velocidade v, por exemplo no tempo t=0.

O fluxo geodésico \phi_t é definido no fibrado unitário \{(p,v)a\in TM; \|v\|=1\}, da seguinte forma

\phi_t(p,v)=(\gamma(t),\gamma'(t)).

Note que se M é uma superfície então o fluxo geodésico ocorre numa variedade tri-dimensional. Mais ainda, é conhecido que o fluxo geodésico preserva uma forma de volume (conhecida como a medida de Liouville), o que permite usar teoria ergódica, se for preciso.

Como todo bom fluxo, é possível quantificar sua complexidade através da entropia topológica. Porém, neste caso ela ganha um significado geométrico interessante através da fórmula de Mañé:

h_{top}(\phi)=\lim_{T\to \infty}\frac{1}{T}\log\int_{M\times M}n_T(p,q)dpdq.

Onde n_T(p,q) é o número de geodésicas que ligam p a q com comprimento menor que T. Em particular, entropia positiva implica crescimento exponencial de tais arcos! (É possível melhorar este resultado, mas deixa pra lá :-D ).

Assim, ter entropia positiva é legal. Um jeito de criar entropia é a presença de ferraduras dentro do sistema. E como é conhecido, ferraduras estão associadas com a presença de pontos homoclínicos transversais. Isto é, quando existe p, órbita periódica hiperbólica cuja variedade estável intersecta transversalmente a variedade instável em algum ponto distinto de p.

Por definição a variedade estável de p é obtida como o conjunto de pontos x cujo omega-limite \omega(x) é o ponto p. O mesmo para variedade instável, considerando alpha-limite.

O teorema que iremos comentar é:

Teorema: O conjunto de métricas em S^2 ou \mathbb{R}P^2 cujo fluxo geodésico tem entropia positiva é denso na topologia C^2.

Uma pergunta natural é o que acontece com outras superfícies. Bem, Dinaburg mostra que toda métrica sobre uma superfície com característica de Euler negativa tem entropia positiva. Sobrou o toro, a garrafa de Klein, a esfera e o espaço projetivo. No toro e na garrafa de Klein a densidade de métricas com entropia positiva segue da combinação de vários resultados e iremos comentar depois. E então isso mata todos os casos.

Claramente, o que sobra é provar isso para variedades com dimensão alta. Mas isso é objetivo do próximo post.

De fato, tal teorema está relacionado com resultados de Mañé, sobre a conjectura da estabilidade. De fato, se definimos \mathcal{F}^1(M) como o conjunto de métricas tais que numa vizinhança C^2 dessa métrica todas as órbitas periódicas do fluxo geodésico gerado por essas métricas são hiperbólicas então temos hiperbolicidade. Isto é,

Teorema. Se g\in \mathcal{F}^1(M)  então \overline{Per(g)} é um conjunto hiperbólico.

O que se espera é que este conjunto seja toda a variedade. Isto sairia, se houvesse um closing lemma para fluxos geodésicos, e misturando isso com recorrência de Poincaré.

Conjectura. Se g\in \mathcal{F}^1(M) então o fluxo geodésico de g é Anosov.

No que segue iremos dar uma idéia da prova desses teoremas e também como se relacionam.

Começamos com a hiperbolicidade de órbitas periódicas. Dizemos que uma órbita periódica é não-degenerada se 1 não é autovalor da derivada do mapa de Poincaré associado.  Uma métrica g é bumpy se todas as órbitas periódicas são não-degeneradas.

Como uma geodésica fechada pode ser na verdade um iterado de uma outra geodésica mais curta então a métrica é bumpy se nenhuma raíz da unidade é autovalor da derivada do mapa de Poincaré. Em direção ao análogo do teorema de Kupka-Smale temos o seguinte

Teorema (bumpy metric): O conjunto de métricas bumpy de classe C^r com r\geq 2 é residual no espaço de métricas.

Em particular, nesse residual o conjunto de órbitas periódicas de período menor que T>0 é finito. Ah! Outra observação meio idiota é que o fluxo geodésico nunca tem singularidades.

OBS: No caso do toro ou a garrafa de Klein,  uma vez que você tem uma métrica bumpy, por Hedlund e Morse, isso implica a existência de geodésicas heteroclínicas. Daí, usando as técnicas de Donnay-Petroll, a interseção pode ser tomada transversal. E daí aparece o conjunto hiperbólico.

A técnica de Donnay-Petroll junto com a enumerabilidade de órbitas periódicas para métricas bumpy implica o seguinte resultado (novamente do tipo Kupka-Smale):

Teorema: Uma métrica genérica tem todas as interseções heteroclínicas (entre órbitas periódicas hiperbólicas) transversais.

Restou nos então ou órbitas periódicas hiperbólicas ou as elipticas.  Acontece que se uma órbita é eliptica então o mapa de Poincaré dessa órbita é um mapa twist.

Isto é, na seção de Poincaré  aparece um anel [0,1]\times S^1 tal que a função r\to \pi_2(P(r,\theta) é sempre estritamente monótona, onde \pi_2 é a projeção na segunda variável e P é o mapa de Poincaré da órbita eliptica.

Da condição twist, Le Calvez consegue obter um ponto homoclínico! E isto gera entropia positiva:

Teorema (Le Calvez): Se f é um difeomorfismo twist no anel, que preserva área, a forma f^*(Rd\theta)-Rdtheta no anel é exata, todos os pontos periódicos não tem nenhuma raíz da unidade como autovalor da derivada e cujas interseções heteroclínicas são todas transversais (lembre que poder ser vazia) então f tem um ponto homoclínico.

Resulta que é possível perturbar a métrica bumpy para obter as hipóteses do teorema de Le Calvez.

Sobrou então o caso aonde órbitas elípticas não aparecem (e pra nenhum perturbado). Ou seja, voltamos ao caso \mathcal{F}^1(M). Daí a conexão mencionada antes.

Neste caso então precisamos obter hiperbolicidade. Seguindo Mañé, a hiperbolicidade robusta de pontos periódicos deveria passar pro fecho em princípio. Porém um passo intermediário é necessário, obter dominação.

Uma família \chi de sequências periódicas de isomorfismos (\eta=\{\eta_j\in GL(\mathbb{R}^N);\eta_{j+p}=\eta_j\}) é dita hiperbólica se cada sequência dentro dela é hiperbólica e é estavelmente hiperbólica se toda família suficientemente próxima dela for hiperbólica.

Note que estar em \mathcal{F}^1(M) diz que (pelo menos tomando mapas de Poincaré) as derivadas sobre pontos periódicos geram uma família estavelmente hiperbólica.

Os argumentos de Mañé mostram que famílias estavelmente hiperbólicas tem dominação:

Teorema (Mañé): Se \chi é uma família estávelmente hiperbólica então existem constantes m\in \mathbb{N} e 0<\lambda<1 ta que  se \eta é um elemento desta família então

\|\prod_{i=0}^{m-1}\eta_{j+i}|E^s\|\|(\prod_{i=0}^{m-1}\eta_{j+i})^{-1}|E^u\|\leq \lambda.

Note que o resultado acima é puramente de Álgebra Linear. Para levar isto ao contexto de fluxos, precisamos de um lema tipo Franks, porém alerto que este resultado é difícil e é meio que central no problema (e paper) em questão.

Em geral não e fácil gerar hiperbolicidade a partir da dominação, mas aqui entra o fato que o fluxo é geodésico! Isto dá uma espécie de “estrutura simplética” pro fluxo, que será estudada.

Vejamos o que ocorre com o lema de Franks. Se \gamma é um pedaço de órbita e \Sigma_0 é uma seção transversal no começo da órbita então é possível escolher uma seção transversal \Sigma_t tal que a derivada do mapa de Poincaré seja simplética.

Definimos Sp(1) como as matrizes 2×2 M tais que MJM=J, onde J é a matriz canônica tal que J^2=-Id.

Assim temos um mapa que a cada métrica associa uma matriz

S(g)=DP_g(\gamma)(1)\in Sp(1).

Lema de Franks. Seja g_0 uma métrica C^4 e $\mathcal{U}$ uma vizinhança C^2 de g_0. Então existe \delta>0 tal que fixada \gamma então a imagem de S(\mathcal{U}) contêm uma bola de raio \delta centrada em S(g_0).

OBS: Usar o tempo 1 é só pra simplificar o enunciado.

Com o lema de Franks, então temos que a família gerada pelas órbitas periódicas é de fato estavelmente hiperbólica (se tem matrizes degenerando a hiperbolicidade, pelo lema de Franks você perturba uma delas para uma não hiperbólica e contradiz o fato de estar em \mathcal{F}^1.

Assim, ganha-se dominação sobre os pontos peródicos. Em seguida, estende-se os fibrados (e a dominação) para o fecho.  Acontece que estes fibrados são Lagrangianos! Isto é, a forma simplética associada se anula nesses subespaços, e uma vez que são Lagrangianos isto implica hiperbolicidade (veja por exemplo os trabalhos de Ruggiero).

Como o fecho dos periódicos é isolada então temos decomposição espectral. Isto é um conjunto finito de peças básicas cuja união é o fecho dos periódicos. Agora, se existir um número infinito de geodésicas fechadas (geometricamente distinas) então pelo menos uma dessas peças básicas tem que ser não-trivial. Aplicamos então o seguinte resultado:

Teorema (Rademacher) Genéricamente uma métrica C^4 de uma variedade compacta e com grupo fundamental finito existem infinitas geodésicas fechadas(geometricamente distintas).

Assim obtemos uma ferradura e isto implica entropia positiva!

Na próxima tentaremos ver o que ocorre em dimensões altas. Seeya!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s